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Tradição e design valoriza o terroir de Andaluzia

Na gastronomia, esse conceito é elevado à máxima potência

31.12.2017

Tradição e design são atributos de um estilo de vida moderno, que articula o consumo cultural de bens através de uma releitura da produção artesanal com refinamento. Na gastronomia, esse conceito é elevado à máxima potência.

A região de Andaluzia, no sul da Espanha, empreendeu um projeto para resgatar e valorizar a tradição de azeites. Há cerca de 12 anos, a família Gómez de Baeza adquiriu a propriedade La Amarilla, em Ronda, localizado em Málaga, que pertencia a um convento, onde as freiras elaboravam seu próprio azeite, colhido de oliveiras centenárias, com até 400 anos.

A família decidiu continuar a tradição de azeites, em pequena quantidade, apenas para consumo interno. Não havia o compromisso comercial. Em 2004, o executivo Pedro Gómez de Baeza decidiu lançar a marca LA Organic para apresentar o terroir (conjunto de fatores climáticos – solo – que determina as características de um produto) de Andaluzia, que hoje produz um dos azeites mais caros do mundo, em média, 30 euros o litro. Para este projeto, Baeza aplicou o mesmo conceito de elaboração de vinhos, convidando dois franceses renomados: o enólogo Michel Rolland e o designer Philippe Starck.

A motivação em recuperar a tradição de sua região é fruto de sua permanência em Nova York, onde constatou que os azeites italianos, franceses e gregos eram os mais caros e tinham mais prestígio que os espanhóis. A marca foi criada para competir com estes azeites e valorizar o extra-virgem da Espanha, como referência para connosseurs, chefs e gourmets. Sob o selo da LA Organic, pequenos produtores de regiões como Córdoba, Jaén e Málaga se uniram à La Amarilla de Ronda para manter o saber tradicional de cultivar oliveiras, reforçando a região de Andaluzia como uma das grandes produtoras de azeite orgânico extravirgem.

“Formamos uma equipe de profissionais e agricultores que trabalham exclusivamente com a agricultura orgânica, aliando um produto de alta qualidade a um design diferenciado”, explica Baeza. Atualmente, os azeites estão em 16 países, sendo comercializados em boutiques gourmets e delicatessens dos Estados Unidos, da Europa, China, Japão e Austrália.

Na equipe de especialistas, o brasileiro Paulo Lima, gastrônomo profissional e responsável por desenvolver estratégias de Food Geography, explica que foi necessário criar um conceito sólido de Food Education para apresentar a qualidade do azeite da região. “Resolvemos criar um conceito de Grand Cru, que faz referência ao esplendor da cultura de produção de vinhos franceses, mais especificamente de Bordeaux e da Borgonha, onde grand cru, premier cru e village estão associados à qualidade e características como idade da parreira e terroir.

A partir deste conceito, Lima desenhou uma geografia do território de Andaluzia, que oferece condições singulares para o azeite: “as plantações de oliveiras são naturalmente selecionadas e distribuídas de acordo com o microclima, diferente em Jaén, Córdoba e Sevilla. A Andaluzia parecia um terroir perfeito para se tornar o grand cru terroir de azeite orgânico extra-virgem”, define.

Esse ano, a marca ampliou o conceito grand cru, para aplicar a outros sabores exclusivos pelo mundo. Lima pesquisou matérias-primas de cinco regiões para lançar em mercados gourmets, unindo a tradição de pequenos agricultores com a assinatura de Starck. A primeira seleção de produtos sofisticados, orgânicos e artesanais são flor de sal, vinagre balsâmico, mostarda, açafrão e a pimenta Espelette. O gastrônomo brasileiro está em busca de novos sabores para 2009. Na lista estão mel, chá e chocolate. Os próximos mercados que a LA Organic pretende 2009. Na lista estão mel, chá e chocolate. Os próximos mercados que a LA Organic pretende entrar são Brasil, México e África do Sul.

O idealizador do projeto destaca que o comensal tem interesse por produtos de alta qualidade e orgânicos. “A LA Organic está alinhada com o novo conceito de comida saudável, que está associada à cultura, origem e tradição, e ao estilo de vida urbano”, comenta Baeza. Um dos seus desafios é manter a produção em pequena escala, protegendo os agricultores locais. Por isso, a seleção tem edição exclusiva e é vendida em lojas especiais. “Nosso foco é a qualidade. Para ter um produto top, tem que ter design”, opina.

Antenado às tendências da gastronomia, o executivo afirma que “o mundo está mudando a forma de encarar a alimentação” e cita o exemplo do estado norte-americano da Califórnia, que é referência em tendências. “Foi o primeiro lugar a combater o fumo e a investir na alimentação orgânica. E isso é uma amostra do que será no futuro. As pessoas mais saudáveis comem de maneira mais consciente. Esta é a tendência: comida orgânica e de alta qualidade”, resume.

Entretanto, Baeza completa dizendo que esse nível de alimentação não precisa ser necessariamente caro, há opções para todos os gostos e bolsos. “Quanto mais reduzida é a produção, mais caro será o produto e o consumidor saberá avaliar essa relação”, diz.

De acordo com ele, os veículos de comunicação são imprescindíveis para formar este público gourmet e transmitir de forma clara e correta os novos conceitos. “A comunicação é a chave para todas as discussões atuais sobre comida, tanto para elucidar como para oferecer soluções”, finaliza. O futuro da alimentação pode estar nas mãos da tradição e do design.

Equipe Malagueta
Texto: Juliana Dias
Revisão: Juliana Esteves e Viviana Navarro
Edição de imagens: Carolina Amorim
Fotos: Divulgação

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