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O terroir asiático da camelia sinensis

Famosa pela excelência do cultivo e preparo do chá artesanal

30.12.2017

Cheguei à cidade de Taipei em uma noite estrelada e fui direto conhecer o mercado noturno de Ningxia, um dos mercados de street food mais importantes da Ásia. Experimentei alguns clássicos da culinária local; as deliciosas omeletes com ostra, arroz com porco assado e também o doce Mochi ou torta de feijão vermelho.

No dia seguinte, eu tinha um café da manhã marcado com a celebridade gastronômica de Taiwan, A-Jiao Zhuano, chef e dona do famoso restaurante Cest’bon, no bairro de Zhong Shang. Falamos de ingredientes, de culinária sustentável e principalmente de chá, uma vez que Taiwan é famosa pela excelência do cultivo e preparo do chá artesanal. Por muito tempo, a ilha foi conhecida como Eastern Beauty, nome de uma variedade produzida ali.

Saímos de Taipei numa quarta-feira ensolarada, rumo à área de Shihding, sul do país, perto das montanhas de Ping lin. No caminho, paramos para conhecer o famoso Museu do Chá, onde aprendemos sobre produção, transformação e tipos, admiramos objetos antigos relacionados ao ritual de servir e conhecemos alguns valores desta arte milenar.

Continuamos montanha acima, rumo às colinas verdes de Shen Keng, um lugar espetacular a 600 metros do nível do mar, onde a natureza parece intocada. E chegamos ao terroir de Gao Dingshin, um dos produtores mais valorizados do mundo. Há mil anos, a família de Gao produzia chá nas encostas verdes do município de Anxi, na província de Fujian, na China e se mudou para as colinas de Shen Keng na ilha de Taiwan. Encontramos Gao na estrada Hengping perto de sua plantação. Ele estava descalço, como sempre, para sentir a força da terra. Aprendeu isso ainda criança com o seu avô. Gao tem uns 40 anos, é simpático e muito tímido. Ele contou que as colinas de Shen Keng são banhadas pela nascente do rio Ji Long e essa umidade é essencial para a saúde das plantas e a qualidade do chá.

“Preparar ou fazer chá é muito mais do que simplesmente preparar uma bebida. É uma emoção e a pura expressão da hospitalidade, fazendo amigos e senho honesto.”
– Gao Dingshin, um dos maiores produtores de chá da ilha

A propriedade de Gao tem 10.000 metros quadrados e ali ele produz somente 100 quilos por ano. Com uma das heranças familiares mais ricas da China, Gao se tornou um expert em Oolong. Para termos uma idéia, 600 gramas do seu chá mais apreciado, o Oolong Gu-Dian, custam US$ 300 em algumas capitais do mundo. A produção de Gao é totalmente vendida anos antes da própria colheita.

Depois de horas de caminhada e degustação, Gao foi buscar dois de seus maiores tesouros. Procurou alguns retalhos de pano dentro de um buraco na parede, que ele chama de cofre. Abriu-os e, com lágrimas nos olhos, retirou algumas folhas secas. Eram dois Oolongs Gu-Dian. O primeiro tinha sido colhido e produzido por seu pai quarenta anos atrás e o segundo, por seu avô, há setenta anos, com folhas de plantas com mais de cem anos de idade. Minha imaginação me levou a sentir o sabor aveludado de cogumelos selvagens e, mais do que tudo, me emocionar com aquele ritual que expressava o seu acolhimento e hospitalidade.

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